O Jovem Impaciente


– Alto! – esbravejou o capitão Aegis Tissat para seu pelotão, após muitas horas de caminhada na neve. – Por hoje chega, homens! Ficaremos aqui esta noite.

Aegis e seu grupo havia, naquele instante, completado uma exaustiva missão de treinamento rotineira ao sul do mundo de Asíris, em uma região gélida e pouco amistosa conhecida como Gibralta. Esse local, especialmente ali, aos pés da cordilheira homônima, se por um lado era temido por suas baixíssimas temperaturas, rajadas de vento lacerantes e perigosas tempestades de neve, por outro era um lugar que a cada ano atraía mais e mais banshees a procura de refúgio espiritual.

Esses banshees, mesma raça de Aegis e seu grupo, peregrinavam até Gibralta em busca de respostas para suas diversas questões existenciais, encontrando um local adequado para as suas meditações e às vezes permanecendo anos por lá. Isso porque Gibralta era mundialmente conhecida por possuir, aos seus quatro cantos, uma quantidade acima do normal de Aura, energia onipresente oriunda dos Deuses e que regia toda Asíris.

Tais homens e mulheres, portanto, acreditavam que estando envoltos mais intensamente por este que eles julgavam ser o presente maior de seus criadores, desvendariam com mais facilidade os segredos dentro de si e, conseqüentemente, de todo o Universo. Porém, esta suposta anomalia referente à concentração da divina Aura em Gibralta era um fato contestado por muitos, sendo verdade absoluta mesmo aquela região possuir, de algum modo, uma atmosfera única em toda Asíris.

A última das barracas que abrigaria o grupo de soldados comandado por Aegis naquela noite não demorou muito até ser montada. O capitão observava a movimentação de seus homens, visivelmente cansados pelas duras atividades cumpridas durante o dia, quando notou um deles um pouco mais afastado de todos. O jovem soldado, chamado Irwind Heatbolth, de dezenove anos de idade, sentava-se em um caixote de madeira e segurava com uma de suas mãos o cano de seu fuzil, ao passo que a coronha fincava-se na neve. Olhava em direção a cordilheira de Gibralta com um olhar perdido e cansado. Porém, ainda que realmente desejasse fitar a cadeia de montanhas a sua frente, não conseguiria, pois a nevasca que havia atrapalhado seu grupo durante todo aquele dia havia se tornado mais forte, formando uma densa névoa que impedia qualquer um enxergar muitos metros no horizonte.

Aegis, observando a estranha quietude de seu subordinado, aproximou-se o suficiente para poder ser ouvido através do barulho do vento.

– Soldado.

Irwind não o ouviu.

– Soldado. – repetiu, em um tom mais alto.

O jovem dessa vez tremeu de susto, levantando-se rapidamente em seguida e virando-se.

– Senhor!

– Heatbolth, não vai descansar com os seus companheiros? Nosso dia foi muito duro e precisamos estar cem por cento prontos para amanhã, o último dia de nossa missão.

– Sim senhor, claro. – Irwind falou sem muita firmeza, olhando para o chão em seguida.

Notando o abatimento em sua voz, Aegis ficou curioso:

– O que há soldado?

Irwind voltou seu olhar ao capitão, depois novamente ao chão, em uma postura bastante tímida.

– Nada senhor, já irei recolher-me. Desculpe.

Porém, assim que bateu continência e passava ao lado de Aegis, o último se pôs na frente da trajetória de Irwind, impedindo sua passagem. O soldado, não entendendo o gesto, parou bruscamente e o fitou nos olhos. Aegis persistiu:

– Soldado, perguntei-lhe o que houve. Reparei que nos últimos dias você tem andado assim, cabisbaixo e pensativo. Atitudes que não combinam com seu jeito sempre brincalhão com todos.

Irwind se calou. Sabia que não havia mais como esconder suas preocupações de seu comandante.

– Venha, vamos nos sentar. – falou Aegis em um tom ameno e já com um leve e amistoso sorriso no rosto.

O soldado retornou ao caixote onde estava segundos antes. Aegis puxou um outro, sentando-se ao seu lado.

– E então? Não vai me contar o que lhe aflige? Aproveite que nesses momentos de descanso minha paciência para ouvi-los fica maior, você sabe. Por causa desta sensação de dever cumprido, a qual tanto gosto.

Um sopro gelado passou entre os dois. A nevasca, naquele instante, parecia ter perdido um pouco da força, facilitando a comunicação entre ambos. Irwind riu timidamente e, em seguida, fechou o rosto novamente. Simplesmente falou:

– Estou cansado, senhor.

– Sim, confesso que eu também. Mas, pelo que me parece, não da mesma forma que você.

– Às vezes me questiono sobre minhas decisões e conduta.

– Que decisões?

– A de estar aqui, por exemplo, servindo junto ao senhor no Exército Real. Pergunto-me se todo este sacrifício um dia me levará a cumprir meu objetivo. Por isso, tenho dúvidas se estou fazendo as coisas corretamente.

Aegis soltou o ar, olhou para o lado e respondeu:

– Bom, soldado, só posso dizer que você é um combatente exemplar. Não possuo queixa alguma de você. É um membro altamente disciplinado, além de...

– Não é isso, senhor. É outra coisa. – interrompeu-lhe Irwind, ficando pensativo logo em seguida.

– Você continua sentindo falta de sua família, não é? – palpitou Aegis.

O soldado nada respondeu.

– Acho que devia visitá-la qualquer dia desses. Talvez nos próximos dias mesmo, quando retornarmos para Mahani. Já faz quase um ano que você não os vê, correto?

– Sim, senhor. Pretendo ir sim até Shandara em breve. Mas confesso-lhe senhor, a saudade que sinto de meus pais e meus irmãos não são suficientes para tirar minha concentração das atribuições que a mim me cabe.

– O que há então, Heatbolth? Não compreendo.

– Como disse senhor, me pergunto se, mesmo continuando a treinar com tanta dedicação, com a disposição de um verdadeiro guerreiro banshee, se atingirei meu objetivo.

– E qual, afinal, é o seu objetivo, Heatbolth?

– Ser muito poderoso, senhor. Para um dia fazer realmente alguma diferença na Grande Guerra contra os furous, ao lado de meus irmãos de armas.

– Você diz se tornar um kogun?

O soldado consentiu timidamente com a cabeça.

– Heatbolth, se por um lado você possui uma competência extraordinária para realizar todas as atividades as quais lhe atribuo, por outro você se mostra demasiadamente impaciente sobre muitas coisas. E não é a primeira vez que lhe digo isto, você sabe. Já conversamos sobre este assunto.

– Sim, senhor. Sei que preciso controlar minha ansiedade. Mas acho que desta vez tenho motivos reais para me preocupar.

No momento em que Aegis pensou em dar sua opinião, foi cortado bruscamente por Irwind mais uma vez.

– Senhor, já não sou mais tão novo. Penso que já deveria ter desenvolvido pelo menos uma técnica especial a esta altura. Mas não consigo. Esforço-me no aprendizado da kogujutsa, treino duro e me concentro em minhas meditações. Mas permaneço estagnado, sinto que não evoluo.

– Soldado, isto que diz é besteira. Por toda sua disciplina que, como falei, é um de seus pontos fortes, acho que é questão de tempo até você aprender a manipular conscientemente a Aura dentro de si e a seu redor. E quando diz que não está evoluindo também está enganado. Você acha que não observo com a devida atenção meu pelotão? Não sei como está a destreza de cada um, ainda mais permanecendo tanto tempo com vocês? Não me resta dúvidas de que você está mais rápido, mais resistente às adversidades e preciso em seus disparos. Sei que ainda não desenvolveu nenhuma técnica que possa lhe conferir o título de kogun, mas acho que isso acontecerá mais rápido do que imagina.

– Senhor, com todo respeito, não tenho tanta certeza. Venho seguindo a fio todas as lições, ouço seus conselhos com atenção e pratico exercícios além do que me é ordenado. Desde de que chegamos em Gibralta, prometi para mim mesmo que me dedicaria ao máximo, que antes que saíssemos deste inferno gelado me tornaria um kogun, assim como muitos aqui já são. Mas já estamos chegando ao nosso último dia e... – nesse instante, Irwind virou-se para trás e encarou uma das barracas recém-montadas. Girou mais uma vez seu corpo, retornando à posição original e olhou para o chão. – ...nada! – disse, num tom mais firme.

Aegis de imediato entendeu o significado do gesto do soldado. Sabia exatamente para onde ele havia olhado, ou melhor, na direção de quem.

– Aquele novato realmente mexeu com você, não é?

Irwind não fez qualquer menção de responder. Apenas permaneceu imóvel, com a cara bastante amarrada. A pequena porção de raiva que havia surgido dentro dele poderia ser facilmente notada por qualquer um que estivesse tão distante quanto Aegis. E o capitão sabia exatamente a razão daquela raiva. Um descontentamento oriundo de um dos sentimentos mais comuns da natureza banshee: a inveja.

O novato o qual Aegis se referia era Hanai Ashvick, um adolescente de dezesseis anos que havia se juntado ao seu pelotão naquela missão em Gibralta. Era um rapaz sério, de poucas palavras, que logo chamou a atenção de todo o grupo de Aegis – e do próprio capitão – por um motivo bem simples: sua incrível capacidade de controle da Aura. Afinal, Hanai, mesmo naquela idade, já havia demonstrado a todos que, dentre outras coisas, era capaz de voar em uma velocidade incrível, mesclar sua energia fora do comum com suas habilidades de espadachim com espantosa destreza e ainda realizar com facilidade a shinya-hashiki, técnica comumente só produzida pelos koguns mais poderosos e experientes como Aegis. Todo o pelotão presente em Gibralta ainda se perguntava o que mais Hanai poderia guardar na manga, uma vez que o fato do soldado ser bastante reservado levava todos a crer que o mesmo ainda possuía muitos segredos.

– Capitão. Me diga uma coisa. Como os Deuses fazem suas escolhas?

A pergunta, feita de supetão, definitivamente pegou Aegis de surpresa.

– Que escolhas?

– Como, por exemplo, quais banshees nascerão koguns. E quais se tornarão mais tarde e com que grau de facilidade. Gostaria de saber qual o critério que eles usam para decidir tais coisas.

– Irwind, um banshee nasce kogun pois possui em seu corpo uma quantidade acima do normal de Aura. E você sabe disso. O que não sabemos até hoje é porque isso acontece.

– Bom, isso é uma das coisas que desejaria muito saber.

– Alguns acreditam que há alguma influência genética, outros que algum fenômeno extraordinário ocorre durante a fecundação ou no ato do nascimento. E ainda há a hipótese de que certos fatores externos nos primeiros meses da infância contribuem. Mas tudo ainda é um mistério.

– Senhor, penso que, se foram os Deuses que criaram a Aura, eles sabem a resposta, correto? E se sabem, bem que podiam nos dizer.

– Irwind, os Deuses se comunicam com nós todo o tempo. E nos dão sim respostas para tudo que precisamos. Só que seus métodos são diferentes dos quais estamos acostumados, sua comunicação é diferente da nossa. É algo muito mais sutil.

– É essa sutileza que me tira um pouco do sério, capitão.

– Na verdade, tira todos nós, às vezes. – complementou Aegis, sorrindo.

– Como lhe falei senhor, desde que chegamos aqui em Gibralta, venho tentando colocar em minha cabeça que o que dizem sobre este lugar é de fato verdade. Por isso, busco agora olhar para meu interior de maneira mais clara. Tento deixar meu espírito o mais leve possível para obter as respostas que quero. Mas só o que consigo é silêncio. E é por isso que estou assim senhor, por isso estou triste.

– Talvez a inveja que vem sentindo do jovem Ashvick e de todos os outros koguns do pelotão possa estar lhe atrapalhando.

Alguns segundos foram necessários para que Irwind processasse dentro de si o choque que a sinceridade de seu capitão lhe causara e reconhecesse que o mesmo estava inteiramente certo.

– Pode ser, senhor. Mas isto não diminui minha sede por respostas. Ao contrário, só a aumenta. Só os Deuses mesmo sabem o que faria para saber o porquê deles darem algumas chances a alguns e a outros não.

A resposta veio na mente de Aegis mais rapidamente do que ele imaginava.

– Irwind, os Deuses dão apenas uma chance para todos nós banshees, igualmente: a chance de viver.

Desta vez foram os dizeres de Aegis que pegaram seu comandado de surpresa. Irwind olhou em seus olhos e franziu a testa, desejando uma explicação para a sentença. Seu capitão não o desapontou:

– Os Deuses dão o dom da vida para todos nós. E junto com ele a Aura, que sustenta todo este dom. Creio que todos nós devíamos nos orgulhar mais por possuí-la. Os humanos, por exemplo, desapareceram deste mundo sem sequer experimentar esta energia divina maravilhosa.

Irwind permaneceu calado, agora fitando a neve mais uma vez e refletindo sobre as palavras de seu capitão.

– Ainda que alguns banshees nasçam com mais Aura dentro de seus corpos do que outros, a Aura fora de seus corpos, ou seja, espalhada por todo o Universo, é a mesma para todos. Por isso, no fim das contas, a oportunidade é única para qualquer um. A diferença é que alguns precisam se esforçar menos do que outros para conseguir o que desejam, ou seja, obtêm e usufruem a Aura com mais destreza, conseguindo realizar, enfim, seus sonhos. Sonhos esses que podem ser bem mais amplos do que aprender uma ou outra técnica de luta, lembre-se sempre disso. Na verdade, nós banshees, através da Aura podemos tudo. Agora, creio que até mesmo esta variedade de caminhos a qual os Deuses nos presenteiam tem um propósito, mas isso é outra pergunta, para a qual não tenho a resposta.

– Entendo, senhor. – respondeu o soldado, serenamente.

– O que estou querendo dizer, Irwind, é que só o que você precisa é persistir. Continue assim, não altere em nada sua rotina, você está indo bem. Disciplina é algo que, infelizmente, falta neste mundo e isto você tem de sobra. E, caso você desvie de seu rumo certo, estarei aqui para ajudá-lo a consertar as coisas. O que não sei é quanto tempo você deverá perseverar até se tornar um kogun. Cada um tem seu tempo, quantas vezes já lhe disse isso! E o seu destino, como também já lhe falei, só será revelado quando a sua hora chegar.

Irwind ficou ainda mais pensativo.

– Acredito que, mais do que se preocupar em se tornar um kogun é como agir quando esta hora chegar.

O soldado saiu de seu estado catatônico e voltou seu olhar a Aegis.

– Como assim, senhor?

– Eu sei que muito em breve você desenvolverá alguma técnica comum aos koguns, tornando-se definitivamente um. Não sei qual será esta técnica, seu nome, sua intensidade, nem importância. Tampouco o que você fará com ela. Acredito, no entanto, que principalmente esta última questão é algo com que você realmente precisa se preocupar.

Irwind parou e pensou durante alguns segundos. Em seguida, como era previsto por Aegis, uma enxurrada de perguntas saíram direto de sua alma:

– Senhor, se tudo o que está me dizendo é verdade, agora me ocorre outras questões. Como saberei ao certo, portanto, quais os verdadeiros desígnios que os Deuses tem para mim? Como posso usar minhas técnicas especiais com responsabilidade e torná-las de fato relevantes? Aliás, como posso saber sobre a minha própria relevância em nosso glorioso exército, sobre minha missão neste mundo tão maravilhoso?

Aegis suspirou, devido ao teor do interrogatório o qual estava sendo submetido:

– Você me pergunta se usará seus poderes para o bem de toda a sociedade banshee. Eu simplesmente o digo que você já o faz com aquilo que sabe. E isso para mim já diz tudo. Nada mudará com relação a isso. E, com relação a seu futuro, bem, digamos que você se surpreenderá com a quantidade de surpresas que ele lhe reserva. E isso é só o que devo lhe dizer por agora.

O sorriso que Aegis deu em seguida era leve e até guardava uma dose de cinismo. De qualquer forma, naquele instante dentro do coração de Irwind, o incômodo pela frustração com os seus treinamentos em Gibralta já havia quase desaparecido, dando lugar a um misto de reflexão, confusão, curiosidade e até mesmo, como não poderia ser diferente, ansiedade, sobre as sentenças reveladoras e enigmáticas de seu capitão. Tais emoções, contudo, havia estranhamente deixado também o espírito do soldado mais sereno. O mesmo imaginou se, talvez, a famosa lenda sobre aquela região mítica do sul de Asíris fosse realmente verdadeira.

– Capitão, como pode ter tanta certeza de tudo isso que me diz? – no instante em que Irwind fez a pergunta, Aegis levantou-se. Em seguida, respondeu com mais firmeza do que em todas as outras ocasiões:

– Sei disso, Irwind, pois, além de ser seu capitão, sou também seu mestre. E, por isso, tenho a obrigação de saber mais sobre você do que sobre o resto dos homens deste pelotão. E, já que você ainda não é um kogun, tenha tranquilidade e confie na intuição certeira de quem já é. Aliás, lhe dou um último conselho: procure o jovem Hanai. Você aprenderá muitas coisas com ele. – disse, já se virando e caminhando em direção ao centro do acampamento provisório. – E, agora, vá descansar soldado. Vá descansar. Nossa conversa termina aqui. – e partiu, fazendo questão em conservar, dentro de si, a felicidade que sentia desde que havia iniciado tal conversa com aquele que era um de seus subordinados favoritos.

Irwind, por sua vez, continuava sentindo a quietude aumentar ainda mais em seu interior, na mesma proporção que a confiança em seu capitão e mestre após aquela conversa. A temperatura estava ainda mais baixa, uma vez que os minutos avançavam rapidamente noite adentro. Porém, Irwind não se importava nem um pouco. Afinal, naquele momento, os flocos de neve que se moviam no ar em grande velocidade, devido ao forte vento, haviam misteriosamente sumido de sua frente, em um movimento semelhante às cortinas de um teatro segundos antes do início de uma peça. O fenômeno, ainda que por um breve momento, deixou, portanto, a belíssima e misteriosa cordilheira de Gibralta finalmente à mostra, de forma bem nítida, para o sério e pensativo soldado.



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